JULIANA

4
Eu a amo. Ela ainda não me ama, mas eu sei que quando a gente crescer vai ser como a mamãe e o papai, um grande amor. A mamãe riu. Riu tanto que eu fiquei meio envergonhado. “Luiz Augusto, você não é muito novo para saber tanto assim de amor?”. Não sou; eu disse a ela. Sou um homem. De doze anos, mas sou um homem. Os homens nascem sabendo essas coisas de amor. Afinal, o que há tanto para se saber?
Juliana é o nome dela. Mora na casa da frente. Ela é tão linda. Tem cabelos com uma cor engraçada, parece marrom, mas tem cara de ser outra cor. Uma cor mais quentinha. Ela usa umas roupas engraçadas também. Sempre muito grandes e sempre muito coloridas. Semana passada, ela apareceu com o braço engessado.
Será que ainda dá tempo de escrever meu nome do gesso dela? Fiquei seis dias na casa da vovó. Deve ter gesso ainda. Eu tive que ficar cinquenta e sete dias com o braço engessado uma vez. Eu era muito burro, tinha só sete anos. Bolinha, esse cachorro gordo, aposto que fica rindo quando eu não estou olhando lembrando-se de quando me derrubou.
O importante, é que vovó me disse para falar com ela. Me perguntou como eu sabia que amava Juliana. Eu contei tudinho que sei sobre ela. Contei que ela fica tentando soltar bolinhas de sabão quanto está chovendo. Ela sabe que a chuva vai estourar as bolinhas. Mas ela nem da bola. Ela ri muito alto. Fico observando da janela. Ela tem um gato. O nome dele é Gênio. Esse nome não é demais?
Contei a ela que essa menina diferente fica me olhando pela janela. Da mesma forma que eu fico olhando para ela. Ela não gosta muito de brincar quando está sol. Minha mãe odeia que brinque na chuva. Droga. Se ela me deixasse brincar na chuva já teria pedido Juliana em casamento.
Ela tem umas bochechas engraçadas. Sempre vermelhas, como se estivesse com calor.
E todo dia depois que acaba o programa sobre plantas, eu olho pela janela e ela está sentada na escada da porta da frente com um sorvete. Todos os dias. E sempre de cores diferentes. Ela é muito esperta. Quer experimentar todos.
Vovó me disse pra convidá-la pra tomar sorvete. E se ela aceitar; vou dizer que a amo. E ela vai ser a minha namorada.
Bem, eu já pedi para o papai o dinheiro do sorvete. E estou na frente da casa dela. Toquei a campainha. Duas vezes. Uma moça com o cabelo igualzinho o de Juliana abriu a porta.
– Oi – acho que estou meio nervoso – A senhora é a mãe da Juliana?
– Sou sim, querido.
– Ela… Ela está?
– Não está, sinto muito. Foi passar a semana com a avó. Volta só na quinta. Você quer que eu de algum recado?
O que eu faço agora? Não sei. Estou muito mais nervoso. Juliana não está aqui.
– Pode falar com ela quando ela voltar, o que acha?
– Sim, senhora! Muito obrigado.
Voltei para casa. Estou bem chateado. Ia ser muito legal. Mas e se ela conhecer outro homem? E se ele gostar de todas as cores de sorvete?
O amor tem essas surpresas.
Mas, e se ela por acaso, estiver perguntando para avó dela sobre mim? Ela sorri para mim. Ela fica me olhando pela janela. E ela sempre ri muito alto quando eu tenho que correr atrás do Bolinha. Ela pode estar fazendo isso, não pode?
Tomara que a avó dela seja tão esperta quanto a minha. E diga a ela para me convidar pra um sorvete.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: