BLUE DEVIL – Grand Piano

4669a4809dd8c41c04b4587b4bcfd04aComo todas as madrugadas das últimas semanas, religiosamente as três da manhã, Laura saía da cama. O problema com a insônia estava acabando com ela. Eu já sugeri todo o possível e imaginável para tentar ajudar. Feito chá, abraçado ela no sofá da sala em silêncio, até ficar chato e ela apelar para os livros. Ela tinha pesadelos constantes e horríveis, que a afetavam fisicamente. Acordava com falta de ar, às vezes chorando, e eu sinceramente não sabia como ajudar. Ela dizia coisas absurdas e assustadoras, como se os sonhos  fossem tirados de livros de terror. E eram tão perturbadores, que eu fui desenvolvendo aos poucos um medo constrangedor de andar sozinho por essa casa no meio da noite. Eu não sei dizer se foi de fato ruim, o corpo dela meio que se adaptou contra os pesadelos e ela acorda antes deles, foi o que ela me disse.

A terapeuta tirou todas as medicações, acreditando que ela melhoraria. Já se passou um ano desde o acontecido, e eu realmente acho que ela melhorou. Mas foi só tirar a medicação, que tudo deu errado. Não foi só a mente dela que começou a sobrecarregar com esses absurdos tirados não sei de onde; ela emagreceu também, não consegue comer. E voltou a beber, inclusive. Ela tinha parado no nosso aniversário de um ano de casamento, quando bebemos tanto que ela bateu o carro. Ela resolveu fugir bêbada para comprar um bolo antes mesmo do Sol nascer. Um sorriso surge todas as vezes que consigo visualizar a sua cara de culpada. Ela nunca foi muito boa com essa coisa de beber.

Isso me deixa triste. Sinto que ela está perdida, mas tenta fingir que não. Acredito que esse é o quarto mês que ela vem dando aulas na Clave de Sol, com as crianças menores. Ela não consegue mais tocar, mas pelo menos não perdeu o contato com a música. Isso acabaria comigo. Eu sabia que ela voltaria ao nosso meio em breve, e com o tratamento e tudo mais, eu tinha esperanças de que ela voltasse a tocar. Mas não tenho mais.

As coisas estão diferentes, não sei. Eu marquei uma hora com a terapeuta dela, para tirar umas dúvidas. Eu não achei certo interromper a medicação. Desde que essa merda começou não existe mais paz nessa casa. Nas primeiras noites era sutil. Sutil demais se comparado com agora. Laura estremecia devagar ao meu lado, e quando eu ligava o abajur ela estava segurando as cobertas contra o rosto apesar de estar suando.

– Sonho ruim – ela dizia.

Apertava os olhos com força e ficava em silêncio, só pedia para deixar a luz acesa e voltava a dormir assim que eu começava a acariciar seu cabelo. Mas isso durou apenas uns dias. Então ela gritou, e não acordou. Foi um pesadelo tão imersivo que eu precisei sentá-la na cama e chacoalhar seu corpo com força até que parasse de soluçar. Laura havia cravado as unhas nas próprias mãos. Acordou extremamente tonta e me abraçou. Eu me senti um completo inútil. Minha esposa disse que tinha alguém no quarto e que esse alguém a levaria embora, estava ali para machuca-la. Eu disse que não, acendi todas as luzes da casa, verifiquei todas as portas e janelas e não foi suficiente. Foi a primeira noite que ela não conseguiu voltar a dormir.

Isso se repetiu, e como se repetiu. Ir para a terapia só serviu para aquela mulher maldita dizer que ela precisava “ser forte e encarar os seus demônios”. Eu não acho que seria errado receitar a merda de um calmante, ou sei lá, alguma coisa que ajudasse. Eu estava péssimo também. Praticamente duas semanas de noites mal dormidas e dias cheios de música alta, instrumentos desafinados, alunos e problemas. Eu me sentia cansado e triste. Sentia falta de Laura na orquestra, e todos os músicos reclamaram da minha falta de atenção, um maestro tem que estar sempre atento.

Manter o controle da cabeça, como todas as outras coisas da vida, é mais fácil na teoria. Sou professor de harmonia na Faculdade de Música e Artes Amadeus, o que é meio contraditório, por que lecionar está perdendo o sentido para mim. Sinto que eu deveria ficar mais tempo em casa, tentar achar a causa do problema de Laura e quem sabe poder ajudar de verdade. Eu não consegui ajudar.

A quase um ano atrás, foi quando senti pela primeira vez que estava perdendo algo. Laura faria seu primeiro recital, completamente sozinha, e o mais estranho é que ela falava disso como se fosse fracassar. Ela falava do sentimento de vergonha que sentiria na hora que errasse a entrada. Eu dizia que ela estava louca. Ela treinava insanamente quase todos os dias, todas aquelas malditas músicas antes mesmo de nos conhecermos. Eu disse a ela, respire e faça o que sabe fazer. Eu convidei os pais dela por que achei justo.  Eles moravam em outro estado, e bem, Laura nunca falou muito deles, apenas que eles não eram os melhores pais do mundo e que ela não ia querer que eles interferissem na vida dela. Eles nunca ligaram, ela também não. Mas eu senti, no fundo do coração, que valia a pena. Imaginei que eles se orgulhariam e poderiam demonstrar respeito ao esforço danado que a filha deles fez.

Eu me arrependi muito de ter feito o convite. Com todas as forças.

Laura subiu as escadas do palco principal estonteante de tão linda em seu vestido vermelho. O teatro estava lotado e eu sei que as pessoas suspiraram quando ela entrou. Ela é linda, estava linda. Ela cumprimentou a plateia de forma exageradamente demorada, como se fitasse cada uma daquelas pessoas nos olhos. Andou lentamente até o piano branco e reluzente e se sentou. Durante longos minutos, que pareceram horas, ela ficou imóvel e o teatro em silêncio. Eu estava tão nervoso que não contive as lágrimas. Não me deixavam ir até ela, ela vai conseguir, eles diziam, ela vai conseguir, eu dizia a mim mesmo. Mas ela não conseguiu. Laura desmaiou no piano e acordou quase doze horas depois no hospital.

Foram tempos muito difíceis. Traze-la para casa, e ficar a sós com ela. Eu não queria fazer nenhuma pergunta, ou parecer insensível ou inadequado. Não mencionei os seus pais, não sei nem se ela os viu de fato. Eles falaram comigo apenas na hora que os recepcionei na entrada do teatro. Mas eles não ligaram, como sempre. Não sei o que pensaram, ou o que deixaram de pensar. Só sei que abandonaram Laura, provavelmente pela segunda vez, num momento de angustia.

Ela se recuperou de alguma forma. Em menos de uma semana ela voltou a falar comigo e procurou uma terapeuta. Ela me dizia sempre para ter um bom dia, me perguntava como tinha sido o trabalho, mas sem querer saber mais detalhes. Por meses, minha ocupação foi praticamente omitida das nossas conversas, as perguntas sobre o meu dia seriam sempre abertas e evasivas. Antes mesmo de eu mencionar a palavra música, ou orquestra ou até mesmo a escola, ela já tinha mudado para outro assunto. Foi muito difícil.

Mas passou. Ela começou a tomar os remédios e a ser mais Laura, propriamente. Voltamos a rir, a transar, a sair. Ela até me deixava tocar o piano. Nunca tocamos no assunto daquele dia. Não sei explicar, não me senti no direito de questionar sobre. Talvez a hora ainda não tenha chegado. Desde o acontecido, minha esposa se desintoxicou de todo seu contato com a paixão de sua vida. Não tocava e não ouvia música sem mim. Até que no último semestre, alguma coisa mudou. Camila, a terapeuta, a convenceu a dar aulas de teoria musical para crianças, e eu quase morri de alegria quando ela disse sim. Foram dias felizes. Até essa desgraçada tirar os remédios de Laura.

Eu sinto que perdi minha esposa pela segunda vez. Hoje, é só outro dia ruim, desses vários dias seguidos que se tornaram semanas seguidas, de pesadelos, conversas desconexas, medo do escuro e falta de apetite. Laura só consegue dormir depois de beber. E muito. Faltou as aulas dois dias seguidos, e passou as noites em claro. Eu vou até a terapeuta dizer que vamos procurar outra pessoa e que preciso de uma receita antiga de Laura.

Minha mulher se transformou nos últimos tempos em uma pessoa assustada e caótica. Ela não me conta o que está acontecendo desde que se ouviu falando sobre a sua situação. Era uma manhã qualquer, na qual eu acordei morto e ela já me esperava na cozinha, depois de outra noite em claro.

– Tem algo, alguém, me perseguindo Gui.

– O que isso quer dizer, amor?

– Essa coisa, essa coisa estava escondida em mim. Ela me disse. Ela esperava por isso. E agora ela quer me enlouquecer…

– Querida, nada vai poder te fazer mal assim, eu prometo, eu não vou deixar!

– Gui, você não entende. Não tem mais volta. As vezes ela me olha da janela, pelo lado de fora, as vezes… outras vezes ela está na parede, no canto, olhando. Outras vezes eu sinto ela dentro de mim, me consumindo.

Laura me disse o que era a coisa que a perseguia, e era ela mesma. Pelo que pude entender. Uma mulher fisicamente idêntica a ela, exceto por alguns detalhes: tem olhos azuis sem pupilas e uma língua muito escura, quase preta. E ela era forte, e com cheiro de morte, ela disse. Eu tive medo que minha amada esposa estivesse de fato enlouquecendo. Ela dizia que a sua sósia aparecia em seus sonhos e a sufocava, apertava seu pescoço enquanto gritava coisas horríveis.

Tenho nojo de você. Vou matar você. Eu vou acabar com você.

Não consigo nem imaginar como deve ser para ela, ouvir essas coisas dentro da própria cabeça. Não tem como fugir. Laura disse que não tem descanso que é o tempo todo. Uma vez tive que arrombar a porta do banheiro por que Laura gritava que seu corpo estava pegando fogo, que a outra estava tentando matá-la. Mas era apenas um delírio.

Eu, como uma pessoa sem nenhuma crença, ou qualquer tipo de respaldo psicológico para lidar com traumas, ou stress, ou o que quer que fosse aquilo, devo tê-la intimidado, na tentativa de ajudar. Disse a ela que compraria remédio para dormir, e que poderíamos mudar de casa. Poderíamos viajar, tentar relaxar, eu só precisava encerrar o semestre aqui. Resolver as coisas da orquestra. De alguma forma, isso a afastou mais de mim. Ela nunca mais disse nada sobre o assunto, sobre os pesadelos, ou sobre a bebida.

E eu estou aqui, outra noite, quase quatro da manhã, sozinho na cama sem saber o que fazer. Laura deve estar lendo na sala, com todas as luzes acesas, ou na cozinha na sua décima xícara de chá. Mas eu estou errado.

Uma música lenta e calma começa a soar pelo teto, inundando a casa silenciosa com notas precisas e limpas. Laura está no piano. Eu sinto meu corpo tremer. Não sei o que fazer. Sento na cama e identifico Mozart no fundo se transformando em uma melodia agressiva, que eu desconheço. Caminho até o pé da escada onde escuto com mais clareza, o que era calmaria virar violência. As notas eram tocadas com força e sem pena, quase como se fossem socos nas teclas.

Não sei se devo deixa-la sozinha ou abraça-la. Gostaria que ela sentisse que eu a apoio, em qualquer situação. A melodia fica mais forte e mais rápida quando chego na porta da nossa sala de música. A porta está fechada. Laura está desferindo golpes nas teclas com uma rapidez absurda, tocando notas impossíveis. Tento abrir a porta, mas ela está trancada. Bato uma, duas vezes.

– Amor? – Agora não é mais música, e sim barulho – Laura, me deixe entrar, por favor!

Laura está ferindo as teclas com toda força de seu corpo e o som mostra toda essa crueza de movimentos, parece que ela não pode me ouvir, continuo batendo na porta e gritando seu nome; até que desisto e começo a jogar meu corpo contra a porta, eu preciso derruba-la. Ouço Laura gritar. Uma voz distorcida e gutural sai de sua garganta enquanto tento derrubar a porta, então um barulho alto ecoa seco e faz com que o piano e Laura silenciem, um tiro.

A porta abre violentamente ao mesmo tempo que os meus joelhos cedem ao chão da sala de música. Uma poça de sangue começa a se formar embaixo do banco do piano. As teclas, a madeira, a mão branca e inerte pendurada ao lado do corpo, tudo vai se perdendo na cor vermelha e viscosa que vai se expandindo por toda parte. A camisola clara vai se tingindo gradativamente e eu perco o controle do meu corpo e dos meus pensamentos. A cabeça pendendo do pescoço deixa a mostra uma cratera sanguinolenta do lado direito que se mistura ao cabelo escuro e molhado. Uma arma no chão.

Laura está morta.

Sinto um ar quente e fétido atrás da minha nuca, e tiro o rosto do chão. Há uma mulher em cima de mim. Ela parece Laura. Só que distorcida, errada, braços longos e cabelo grudando no rosto contorcido em uma careta. De canto de olho vejo o corpo da minha esposa ensanguentado ao meu lado, e as mãos frias da impostora trazem meu rosto de volta para ela.

– Olá, amor! Eu preciso de você. Preciso taaaaaaanto de você – nunca ouvi algo tão inumano e assustador quanto essa voz. Como se fossem várias vozes, em várias intensidades, todas juntas, uníssonas. Meu corpo exalava medo e pude sentir minha mente mergulhar em um abismo.

Ela tinha olhos muito azuis. Sem pupilas.

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