A noiva

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Ah! O amor. Maldito seja esse sentimento um tanto quanto macabro. Linda é sua metáfora. A ideia de que ele é divino e iluminado, que aquece os corações e os torna de fato, vivos. O amor, nada mais é que um vício infame que se entranha na alma do homem e rouba toda sua identidade e juízo.  Faz muitos cometerem seus maiores erros e carregarem arrependimento e culpa pelo resto de suas vidas inúteis.

Todas essas palavras ressoavam na mente de um jovem levemente embriagado encolhido no canto mais escuro de La’ Taverna; um bar sujo e mal frequentado, de luzes avermelhadas e moveis negros como a noite. O jovem, chamado Jorge, consolidava ali, naquela quinta-feira perdida no mês de agosto, seu destino.

Todas as quintas-feiras, pelos últimos onze meses, Jorge saia as dez da noite de seu pequeno cubículo que ficava a uns quarteirões de distância de La’ Taverna, e sentava-se no mesmo canto escuro em um banco de couro vagabundo numa mesinha redonda de madeira mal polida. Essa sua rotina repetida todas as semanas religiosamente se devia ao anjo magro de cabelos louros e bagunçados que ficava atrás do balcão. Apenas nas felizes quintas-feiras de Jorge que ela, Melissa, dava o ar da graça no bar decrépito. O dono do bar certa vez mencionara que ela apenas cobria o horário do primo mau encarado, que de fato era o único garçom do lugar.

O que esse tal primo fazia nas quintas-feiras? Nem Deus, nem o diabo se importam com isso. A única coisa que importa, que realmente importa, foi que graças a esse ínfimo compromisso, Melissa surgiu e com aqueles longos cabelos encantou o pobre Jorge.

Melissa era muito branca, muito magra, frágil como uma donzela em perigo. Jorge sabia que seu verdadeiro trabalho era em uma banca de jornal do outro lado da cidade. Ficava atrás de um balcão de caixa minúsculo e desconfortável, mascando balinhas e com o olhar perdido no horizonte, infeliz e tediosa.

Jorge sabia disso por que andava cerca de cinquenta minutos todas as segundas-feiras para observa-la abrir a banca. Espantar os pombos infernais que atrapalhavam a passagem na frente da porta, espanava o velho expositor de revistas, colocava um ou dois livros de bolso de histórias insignificantes na vitrine, varria tudo preguiçosamente e escondia-se atrás do caixa. O movimento na segunda-feira era horrível, três ou quatro clientes, deprimente.

Pobrezinha, não tinha nenhuma perspectiva. Jorge a observava servir as bebidas. Rosto sério, o lábio inferior ligeiramente tremulo, os braços finos abrindo garrafas e mais garrafas de cerveja na noite agitada do bar. Diversos homens a cortejavam, homens horríveis, feiosos e grotescos. Mas ela era impassível. Não mudava a expressão e não respondia a nenhuma gracinha.

“Essa é a minha garota”, Jorge pensava. Uma certa quinta-feira à noite, o dono do bar gritou com a moçoila por conta de um desastre ocorrido. Mais de cinco garrafas quebradas por um descuido grave. Ela estava aérea, perdida em sua própria cabeça. Jorge sabia o porquê.

Culpa do dia anterior. As malditas quartas-feiras. Jorge sabia o que ela escondia nas quartas-feiras. Ele sabia, pois a havia seguido depois do trabalho. Uma semana feliz aquela. Jorge não tinha conseguido vê-la abrir a banca na segunda-feira, na terça esteve ocupado, resolveu vê-la no fim do expediente no dia seguinte, sempre de longe, o que se tornou um habito, nas quartas, fim de expediente.

Ele a seguiu, de modo respeitoso e seguro, é claro. Só queria vê-la em casa e bem. Talvez o caminho não fosse seguro. Viu que a belezinha morava em um pequeno apartamento em cima de um restaurante simplório, num bairro afastado e estranho. Coitadinha, por que morar assim tão longe?

Ele subiu em cima do telhado da casa ao lado, uma laje bem feita, casa boa aquela, duas caixas d’água, tudo bem limpo, sem entulho. Havia um lugar na penumbra que lhe dava perfeita visão do banheiro de Melissa. De fato, o apartamento era mal construído, coisa de gente burra, que não sabe o que fazer com meia dúzia de notas de cem e constrói tudo de qualquer jeito e com as próprias mãos.

Às quartas, Melissa recebia uma visita horrenda. Uma moça malvestida e grosseira, que entregava pra ela um pacote suspeito que Jorge logo descobriu que eram seringas. Pobre anjo, se rendendo a coisas tão banais pra fugir da tristeza. Jorge a observou diversas vezes injetando aquela coisa nos braços brancos, enquanto se deitada na banheira amarelada e ficava lá. Horas e horas. Certa noite ela acabou por dormir na banheira. Jorge resistiu ao impulso de invadir a casa e leva-la para a cama.

Jorge se preocupava muito com ela. Tinha medo que se ferisse. Conhecia toda sua rotina. As roupas que usava para o trabalho na banca, os decotes obscenos que usava para o bar e a roupa feia que usava aos domingos para visitar uma senhora no asilo. Ah, sim! Um certo domingo que estava daquele lado da cidade, resolveu passar na frente da casa de Melissa e a viu saindo. Não tinha muita coisa pra fazer, resolveu acompanha-la a distância. Para garantir que estava tudo bem. Acabou por achar meigo o gesto da menina, ir ao asilo. Que coisa meiga, não é mesmo? Jorge por si só, não se achava uma pessoa meiga. Por conta disso, passou a acompanha-la aos domingos também. Escondido. A metros e metros de distância dela.  Assim sentia que era ele mesmo que adentrava o asilo falido, e conversava com os velhinhos e a senhora em especial que ela visitava. Isso o revigorava.

Foi assim, aos poucos se apaixonando por Melissa. Via nela alguém que precisava de amor. Que precisava de alegria na rotina, de alguém para cuidar dela. Tudo se tornou ainda mais claro quando teve um sonho com a jovem. Foi um sonho claro, nítido e inesquecível. Sonhou que se casavam em um dia chuvoso e cinza, numa capela antiga e barroca, e que ela estava radiante, num vestido branco como a neve e que disse sim ao padre, e que seria sua mulher pra sempre. Ele a viu sorrindo e dizendo que o amava. Assim ele soube, ela era a mulher da sua vida.

Mas o amor tem suas artimanhas demoníacas. Como é que o universo conspira apenas pra um dos lados? Melissa só havia proferido uma frase a ele durante onze meses. Ela perguntou isso dezenas de vezes, mas era as mesmas palavras. Ele sabia de cor o som que cada silaba faria, o movimento dos lábios, como o olhar dela estaria sempre fitando atrás da cabeça dele, nunca os olhos: “Gelo no uísque? ”. Fria e direta. As palavras martelaram sua cabeça por dias e dias seguidos. Será que ela o enxergava?

Será que ela sabia o seu nome? Algum dia sequer teria notado sua presença? Sempre com os olhos vazios, fitando o nada, respondendo perguntas sem nem mesmo ouvi-las, pedidos errados de clientes aleatórios, canecas caindo, toda vez depositava a garrafa de bebida com total descuido em cima de sua mesa. Será que ela estava realmente ali?

Jorge havia tomado sua decisão a muito tempo. E hoje era o grande dia. Hoje Melissa seria sua e de mais ninguém. Ela descobriria o quanto ele a amava e iria querer ficar com ele para sempre. E seriam felizes juntos. Quem sabe não teriam filhos?

Jorge saiu de La’ Taverna e aguardou em silencio no meio das grandes caçambas de lixo em meio a rua deserta. Havia alugado um velho carro e o estacionou a metros de distância do bar. Tudo sairia conforme o planejado. Esperou uma hora, duas, quatro no total. As três e meia da manhã a loira saiu do bar, com as pernas vacilantes e pouca roupa. Estava frio. Acendeu um cigarro e se dirigiu para a rua deserta.

Jorge seguiu a moça de passos trôpegos durante alguns segundos. Não é possível que ele seja invisível pra ela. Ou será que ela ainda está sob efeito das seringas suspeitas? Jorge acelerou o passo e desferiu contra a cabeça dela um golpe certeiro com uma viga de ferro que tinha escondido no lixo, como parte de seu plano. Sentiu o cheiro de sangue. “Mas que merda”, pensou ele. Não tinha a intenção de feri-la.

Ele a carregou nos ombros como se fosse um saco de cimento imundo. O carro estava a passos de distância. Sentiu o sangue dela molhar suas costas. “Mas que merda”.

Dirigiu até seu cubículo e adentrou nele segurando-a como uma noiva. Era isso que ela era, sua noiva. A depositou na mesa da cozinha em cima de centenas de folhas de papel, e amaldiçoou a si mesmo por não as ter tirado dali. Eram desenhos que fez da sua garçonete favorita. Agora vários deles estavam sujos de sangue. O cabelo loiro dela estava grudado na gosma vermelha na nuca. Maldição.

Decidiu leva-la para banheira. Assim poderia dar a ela um remedinho pra dormir e cuidar dela. A noite seria linda. O banheiro era escuro se não fosse por três velas na janela. A luz havia queimado a muito tempo, Jorge estava com a cabeça longe sempre esquecia de comprar. Injetou no braço do corpo inerte uma solução de calmantes que ele mesmo inventara. Já que possuía as receitas de seus próprios remedinhos e calmantes, juntou tudo numa dose cavalar de medicamentos. “Vai ficar tudo bem”, ele pensava.

Deu um longo e demorado banho em sua preciosa menina, lavou os cabelos e fez um cuidadoso curativo no corte que no fim nem era assim tão sério. Colocou-a na cama depois de seca-la com carinho e a tentação era grande, muito grande. Mas ainda não era hora. Eles ainda não podiam. Vestiu o corpo nu de Melissa com um vestido branco com alguns furos no tecido fino. Era o que tinha conseguido comprar em um brechó qualquer no centro.

Pegou um papel amarrotado do bolso proferiu umas bobeiras sem sentido sobre o matrimonio e a fidelidade, algo a ver com doenças e até que a morte os separe. Enfiou desajeitadamente um anel dourado na mão de Melissa e na sua própria mão. Pronto. Agora sim. Marido e mulher. Ele estava eufórico. Tirou a camisa suja de sangue. Levantou o vestido de Melissa e inspirou profundamente em seu pescoço pálido. Ele tocava a pele de sua coxa com carinho quando ouviu ela balbuciar alguma coisa. Os músculos enrijeceram e ele sentiu o pânico chegando.

– Jo… João – Uma voz fraca emergiu do interior da menina.

Jorge sentiu o corpo tremer violentamente. Quem diabos era João? Não devia ter confiado seu coração a uma vagabunda qualquer. Seu sangue estava fervendo. Sem mesmo se dar conta de seus atos deu-lhe um tapa fortíssimo no rosto a ponto de partir os lábios. E chorou amargamente, como uma criança decepcionada.

Jorge juntou as roupas antigas de Melissa, enfiou num saco de lixo e colocou juntamente com seu corpo adormecido no porta malas. Estava se sentindo traído e magoado. Nunca fora tão humilhado. Dirigiu em uma velocidade perigosa e chegou novamente em La’ Taverna. O Sol estava quase dando as caras.

Abandonou o corpo de sua quase esposa no chão e saiu caminhando sem rumo deixando tudo pra trás.

No dia seguinte a cidade estava toda remoendo boatos. Uma garçonete havia sido encontrada na frente do bar que trabalhava sob o efeito de drogas e levada para o hospital e um carro alugado de uma empresa de respeito havia sido depredado.

Mas o que mais corre nesse mundo são boatos e a enxurrada que leva todos os resíduos esgoto abaixo.  Dizem as más línguas que a garçonete fugiu do hospital e nunca mais foi vista. O tal bar, que já não era de melhor reputação, por fim fechou as portas. E o mais temido de todos os maldizeres era que enfim o manicômio da cidade tinha recuperado seu interno fugitivo. O homem havia sido encontrado a esmo sem camisa e sujo de sangue e segue dia após dia desenhando uma das enfermeiras vestida de noiva, dizendo aos quatro ventos que se guardou pra ela. E que espera que ela tenha feito o mesmo.

 

 

4 comentários em “A noiva

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  1. Putssssssss, não esperava nunca por esse final, foi sensacional, no início eu não imaginava nunca que esse poderia ser o desfecho, meio tenebroso mas legal kkkkkk está de parabéns, ótimo texto, se tem uma palavra que o definie é envolvente, parabéns novamente e continue escrevendo!

    Curtido por 1 pessoa

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